quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Das Saudades

Pablo Neruda escreveu: " Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já"
É assim, deste jeito que vejo hoje a saudade que sinto dentro de mim. Um amor que nunca vai me abandonar, mas o amado se foi há pouco tempo.

Eu não sei se você teve a chance de conhecer meu pai, mas ele era destes raros homens. Era fácil reconhece-lo na rua, calça social, camisa meio aberta e sandália no pé. Relógio no braço esquerdo, cabelo penteado pra trás e um jeito peculiar de andar. Não há no Jaguaré quem não conhece-se o Rui Avelino, eletricista, quarto zagueiro do Adubo Bueno e fã de Tião Carreiro e Pardinho.

Nasceu na cidade de Remanso, estado da Bahia, no dia 16 de Janeiro de 1942. Filho de Januária Alves Vieira e pelo que se sabe das conversas que tive com minha avó, filho de Fernando, um fazendeiro da cidade. Meu pai deixou o nordeste ainda bebê, com um nome provisório de Rui Alves Vieira, mas então minha Avó conheceu um rapaz de nome José Avelino, alagoano, no qual assumiu meu pai, registrando-o como Rui Vieira Avelino.

Sempre gostou de futebol, era corinthiano deste do bando de loucos, contou-me muitas histórias da época em que freqüentava o estádio do Pacaembu (quem nunca ouviu as famosas histórias do tapa que ele deu no português ou do dia em que seu amigo esqueceu o caminhão na praça Charles Muller.) Me falava também de um tal de Pelé, “o negão era foda, driblava até poça d'água” dizia ele.

Era católico, devoto de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora Aparecida. Todos os anos nossas passagens estava compradas e lá íamos os dois para Aparecida do Norte. O roteiro era o mesmo: Missa na basílica e visita a igreja velha, almoço no bar do mineiro (regado a cerveja e pinga amélia) e voltamos para o ônibus.

Poucas vezes encontrei o velho Rui triste, era duro na queda, exceto quando assistíamos um filme de nossa senhora ou quando falávamos do amor que existia entre nós. Gostava muito de poesia, tinha cadernos e cadernos com anotações e então entendi de onde vem a minha vontade de escrever e ler.

Lembro da última vez que saímos, era tarde de sábado, fomos á um churrasco e encontramos um amigo, Fernando Galante. Já debilitado pela doença, meu pai arriscou fazer segunda voz na canção que ele mais gostava “Meu Reino Encatado”. A voz não saía. Ele balançava a cabeça e dizia: “Não sai Galante”.










Na noite do dia 9 de Agosto o coração do velho Rui parou. Ficou a saudade das tardes de domingo, das modas de viola, do macarrão, do bolo de cenoura e do abraço de pai.

“Quanto tempo também o Senhor me esperou
Nas tardes encontrou saudade em meu lugar.
Mas ao me ver na estrada ao longe voltar
Num salto se alegrou e foi correndo me encontrar.
E não me perguntou nem por onde eu andei
Dos bens que eu gastei, mais nada me restou.
Mas olhando em meus olhos somente me amou
E ao me beijar, me acolheu num abraço de pai.”

1 comentários:

  1. Vim prestar minha solidariedade, você deve ser uma pessoa especial, esse amor que dedica ao seu pai ( digo dedica porque ele se foi mas o sentimento permanece) é muito raro hoje em dia.
    Meu abraço respeitoso.

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