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terça-feira, 17 de março de 2009

Histórias de Ipanema

Essa semana, olhando os livros no sebo do centro de São Paulo, encontrei meio que por acaso o exemplar de “Ela é carioca” do escritor Ruy Castro. O livro é uma enciclopédia do bairro de Ipanema, Rio de Janeiro. Ruy conta a história de um dos bairros mais conhecidos do mundo, seus personagens, suas histórias e como Ipanema influenciou a cultura brasileira.
Imagine você em uma festa na casa de Aníbal Machado onde os convidados poderiam ser Rubem Braga, Fernando Sabino, Drummond, Niemeyer, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Paulo Autran, Portinari, Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres e uma vez ou outra esbarrasse com Pablo Neruda e Albert Camus, que festa hein?
Ipanema foi à casa de muitos artistas, Tom Jobim morou por muito tempo na Rua Nascimento e Silva 107, Cazuza também morou em Ipanema. E sentindo inveja de não ter nascido em um tempo de ouro, escrevo aqui uma pequena história sobre minha convivência com esse bairro.
A primeira vez que pisei em Ipanema, foi no ano de 2004, minha irmã morava em Copacabana e decidi procurar a Rua Nascimento e Silva, queria encontrar o prédio onde Renato Russo morava. Sai da Avenida Nossa Senhora de Copacabana e entrei na Rua Rainha Elizabeth, passei pela Gomes Carneiro, Praça General Ozório e fui pela Visconde de Pirajá. Cruzei toda á Praça Nossa Senhora da Paz, rodei as ruas totalmente perdido e finalmente cheguei a Nascimento e Silva. Encontrei o Prédio onde Renato faleceu em outubro de 1996 e voltei pela praia, pegando a Rua Vieira Souto. Olhei de longe o Arpoador e voltei a Copacabana.
Mal sabia as histórias que haviam se passado pelas ruas onde agora eu passava, apenas sabia que aquele bairro era inspiração de Vinícius de Moraes e Tom Jobim para a música “Garota de Ipanema”. Descobri tempos depois que aquele bairro era o berço da Bossa Nova e moradia de grandes músicos, atores, artistas plásticos, cineastas, jornalistas entre outras tantas personalidades.
A segunda vez que pisei nas areias de Ipanema foi à da passagem do ano de 2004 para 2005. Com alguns amigos, descobrimos um barzinho chamado Empório, na Rua Maria Quitéria 37. Nesse bar, um ano mais tarde, conheci uma cantora de barzinho, nem me lembro o nome dela, apenas sei que foi a minha primeira transa com uma carioca e meus amigos paulistas, as cariocas são quentes. Foi uma madrugada e boa parte da manhã movidos a suor e cerveja, me senti quase um personagem de Nelson Rodrigues.
Nesse bar conheci alguns conterrâneos, onde no final da noite acabamos em um maravilhoso luau na pedra do arpoador e assistimos um nascer do sol incrível, com direito a lágrimas das meninas é uma má digestão do meu amigo Adriano Paiola.
Nas ruas desse bairro também chorei, na madrugada de Março de 2006, conheci uma pessoa fantástica, onde terminamos meu aniversário conversando sobre nossos amores e acabei indo chorar nas areias de Copacabana. Viviane e Giseli, naquela manhã, receberiam uma ligação minha com os seguintes dizeres:
- Oi, acabei de sair de Ipanema, estou em Copacabana, o sol está nascendo, a praia é linda, eu estou tomando cerveja e também estou chorando muito.
Todas as tardes saía do apartamento em Copacabana e sentava na pedra do Arpoador para ficar lendo e olhando para o mar. Lembrava-me muito da música “Vento no Litoral” da Legião e no fim da tarde, aplausos para o pôr do sol costumeiro de Ipanema.
Mas nem só de tristes histórias tenho do Bairro, Eu, Adriano Paiola e Bruno Modanesi aprontamos muito nas areias cariocas. Saíamos de Copacabana cantando: “Copacabana princesinha do mar” e entravamos em Ipanema com outra canção já conhecida de todos: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”. Coisas de paulistas. Invadíamos as festinhas que rolavam na praia e fazíamos amizades com a galera da região. Pena que as amizades que fiz em Ipanema estão longe das pessoas que fizeram desse bairro um dos mais famosos do mundo.


sábado, 7 de março de 2009

A gente somos Inútil

Cazuza já cantava “Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga
pra gente ficar assim.” Meu caríssimo poeta, se todos brasileiros mostrasse a cara estaríamos fudidos. Na semana passada aconteceu um grande protesto na faculdade onde estudo, gente gritando “sai da sala”, e eu lá no fundo me perguntando: “Mas tem motivo real pra sair da sala ou será apenas uma bagunça de estudantes?”
Realmente, havia um motivo para aquela manifestação estudantil, liderada com tanto afinco pelos jovens estudantes. De repente um deles adentra a sala e diz:
“A gente não tem uma carteirinha decente para pagar meia no cinema, isso aqui é uma vergonha.” Pronto! agora sim, me senti um estudante de verdade, vivendo na injustiça dos tempos da ditadura militar, protestos por causa disso? Não faz muito tempo que saímos do governo militar, onde jovens protestavam e perdia a vida por motivos reais, lutando por um país mais justo, democrático. Democracia? ela veio, em 1985 e olha o que fizeram com ela, manifestação por causa de carteirinha de faculdade para pagar meia no cinema, eu só posso estar sonhando.
Essa frase do estudante me lembrou a música “Inútil” da banda paulistana Ultraje a Rigor, liderada pelo cantor Roger Moreira. A canção foi inspirada em vários fatos, em uma concordância peculiar de um pedreiro rendeu o refrão “a gente somos inútil”, a polêmica frase do maior jogador de futebol de todos os tempos, Pelé, onde o mesmo dizia que o brasileiro não sabia votar, rendeu o primeiro verso: “A gente não sabemos escolher presidente”. O verso “a gente joga bola e não consegue ganhar” veio da decepção da seleção brasileira na copa de 82. “Daí em diante foi só preparar uma lista de frustrações” diz o vocalista.
O riff da canção é tão marcante como “Satisfaction” dos Rolling Stones e a música em si foi marcante para toda uma geração, que vivia, há tempos, em um Brasil injusto (e ainda vive é sempre bom lembrar). A música “Inútil” serviu para muitos na época da democratização brasileira. Osmar Santos foi mestre de cerimônias do primeiro comício para as diretas já e tocou a música para quase 10 mil pessoas em São Paulo. Ulisses Guimarães em resposta ao comentário de Carlos Átila, porta voz do então presidente na época, João Figueiredo, disse que mandaria uma cópia da música para que ele “tocasse e ficasse ouvindo”. Em São Paulo, mais de um milhão de pessoas participavam da manifestação ao som de “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, que era hino da campanha “Diretas Já”. Roger discorda: “Era “inútil” que deveria tocar, mas na prática “Inútil” incomodava...Temos mania de colocar a culpa nos políticos mas a música diz que a coisa dependia do povo”
Concordo plenamente com isso, tudo nesse país depende de nós. Nosso povo tem mania de colocar a culpa em todos e em tudo, deve ser mania de Brasileiro, arrumar um culpado pra tudo. O Brasil é tão injusto que o povo vestiu a camisa da injustiça, fez da mesma seu slogan e pra tudo ele se sente lesado. Se alagar o bairro a culpa é do prefeito e não da dona de casa que, com seu marido, jogou aquele sofá antigo no córrego. A culpa é sempre dos outros, Brasileiro tem mania de ser injustiçado, é o filho mimado do planeta, que reclama do que não tem, destrói o que tem e faz pouco caso do que ganha. Infelizmente Roger, a gente somos inútil.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Poder da Criação.

O meu blog tem um slogan: “Um sentido que esqueço de ter”, talvez eu tenha perdido algum tipo de sentido em postar esse texto, pois sempre coloco aqui bandas de rock, mas um sentido sempre teve nos textos do “Por Aí”: A boa música e o protagonista desse texto faz e muito bem a boa música.
Alcione já cantava: “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar” e o samba, por ser do morro, por ser do povo, por nascer e viver nas dificuldades desse país sobreviveu. Quase nada apareceu e há muito tempo abriu-se uma vertente do samba, chamado “Pagode”, e hoje em dia em cada baladinha existe um grupinho, tocando, fazendo mais pose do que música. Eu não tenho verdades, tenho as minhas razões, que são minhas.
“O meu canto é uma missão, tem força de oração e eu cumpro o meu dever”, Diogo Nogueira canta assim, sua missão parece ser o samba e acredito eu, resgatar um pouco do mesmo, fazendo o novo. Diogo é carioca, filho do saudoso João Nogueira, foi criado no meio das rodas de samba e na quadra da escola Portela. Ali Diogo cresceu, ganhou respeito e consideração de muitos bambas da música e ganhou reconhecimento.
Não quero falar do Diogo, filho de João Nogueira, quero falar do artista, do músico e do cantor e compositor. Pra começar, o que chama atenção no rapaz é seu cantar, o cara canta bem, diferentemente de muitos outros da sua geração. As músicas do seu disco ao vivo são de alta qualidade, com participações especiais que nunca esperei ouvir, como Marcel Powel filho de Baden Powel, parceiro querido de Vínicius de Moraes.
Diogo Nogueira resgata o samba, resgata o partido alto, trás a roupagem do seu tempo, amigos de seu tempo como Marcelo D2 que cantou em um de seus discos que no samba havia uma maldição. Mas Diogo canta “Ninguém faz samba só por que prefere”, Diogo vem da raiz, foi criado em berço explêndido e sabe muito bem o que canta, sabe o poder e o significado desse ritmo.
Amigo leitor, talvez eu nem tenha escrito coisas geniais nesse texto, pois não nasci no samba, não entendo tanto, apesar de entender muito mais que outros tantos. Mas foram me chamar e aqui estou eu, venho de lá pequenininho e pisando devagarinho nesse solo sagrado chamado Samba.